segunda-feira, 29 de junho de 2009

transmissao de "Newark" (1987) para estudantes da FAC/CNDC "Newark/Re-Worked" (2009)


Michelle- Quais são as operações utilizadas para realizar a transmissão de “Newark/Re-Worked” ?

Stacy Spence(1)-
Antes de começar a transmitir a coreografia, nòs estàvamos trabalhando no sentido de dar a todos o mesmo modo de “ler o corpo”, o mesmo modo de “como” usar o corpo. Dessa forma quando começamos a fazer a coreografia, todos tinham uma linguagem comum, isto é, uma mesma “pàgina” mesmo com diferentes possibilidades. A partir dai começamos a aprender os movimentos da coreografia original, que também ajudam a informar a aula que dou pela manhã, que por sua vez informa o movimento da coreografia, enfim, é um trabalho em cadeia. Isto porque a coreografia està lidando com certas propriedades mecânicas do corpo bem especificas, e trabalhar especificamento sobre isso, ajuda a transpor a idéia do movimento dele mesmo, para a relação com o espaço e com as outras pessoas. Então eles estavam aprendendo as frases de movimento, até tê-las muito bem conhecidas, para depois aprender a coreografia. O primeiro modo de aprender a coreografia, foi através do video da coreografia original, repetindo exatamente o que estava no video. Agora, olhando pra tràs, acho que foi uma boa estratégia, pois deu aos dançarinos mais informações sobre como usar seus corpos, pois eles estavam diretamente absorvendo o que jà tinha sido feito depois de muitas experimentações e tudo o mais, e eles puderam captar o “espìrito” do que é esperado para “Newark”. Essa primeira seção que eles aprenderam é a ultima parte da coreografia.

De là, eles aprenderam mais frases, e ao invés de aprender através do video, nòs trabalhamos sobre as « idéias de composição » relacionadas ao espaço : ficar perto de alguém, ficar longe de alguém; como você trabalha com alguém perto; como o espaço muda e o quê està disponivel pra você nesse espaço; quais são as escolhas que podem ser feitas. Então nòs improvisamos, e eles ficaram realmente bons em improvisar, primeiro fazendo escolhas especiais em posições simples como sentar, ficar de pé, andar, rolar, sempre tendo em mente que as escolhas estão sendo feitas em relação as outras pessoas. Essas improvisações foram fixadas em movimentos e frases sempre tendo em mente as escolhas espaciais que devem ser feitas. Depois de tudo memorizado, tivemos que refinar um tipo de instinto, que ajudasse a lembrar porque você fez essas escolhas, quais foram as escolhas, e recriar novamente, ai então estava realmente fixado. Passamos a trabalhar em pequenos ajustes, memorizando novos detalhes, e eu fiquei o tempo todo como o « olho de fora », atento para as oportunidades mas mantendo tudo relacionado como a idéia original, porque todo mundo tem suas idéias individuais sobre o quê a obra é, e como é. Então esse foi o modo como eu trabalhei como a « pessoa de fora », que mantém sobre controle as idéias que Trisha Brown trabalhou originalmente. E muitas dessas idéias são mais simples que muitos bailarinos pensam. E foi assim que terminamos com todas as outras seções. Cada seção lida com o espaço diferentemente, as duas primeiras seções chamadas « horses » lidam com um espaço onde duas pessoas devem manter o espaço entre elas, mudando isso algumas vezes, e depois finalizar isso enquanto outras duas pessoas estão livres, mas eles precisam manter-se proximos e distantes. Na pròxima seção, o espaço é limitado e pequeno, em que todos devem ocupar ao mesmo tempo. E na ùltima seção, todo o espaço é usado, existem unìssonos e a idéia de mover-se e mover pessoas como se estivessem movendo mobilias de uma casa.

Michelle- Em que medida que as idéais que moveram a criação original, estão também movendo esta transmissão ?

Stacy Spence-
Eu definitivamente tento não tomar liberdades. E novamente, se eu percebo os bailarinos tomando liberdades, e entrando em lugares que eles estão acostumados, os padrões pessoais que nada têm haver com a coreografia, eu tentarei puxà-los para a proposta, o corpo de « Newark ». A coreografia é sobre « formas » sendo movidas, e também ser sensivel ao contato, mas não é necessariamente sobre estar junto se misturando uns aos outros, como uma improvisação de contato. Quando isso aparece preciso estar atento para remover esse tipo de padrão. Pessoalmente sempre tendo manter tudo bem pròximo da coreografia original, pelo menos o que tenho de conhecimento da obra original.

Michelle- Como as obras de Trisha Brown começaram a sair da companhia ? Como « Newark » veio para Angers ?

Stacy Spence-
Tem um pouco haver com a idéia de « nossos clàssicos ». Tem alguns trabalhos da companhia que as pessoas pedem por verem algo de essencial, como uma ferramenta de aprendizado, ou porque a coreografia faz uma impressão forte, ou fez uma forte inovação que pensam ser importante. E como « Set and Reset », que no momento em que foi criada abriu a idéia das pessoas para outras possibilidades de se entender uma coreografia.« Newark » é outra peça que parece ter marcado algo importante : Isso é algo que é claro e diferente do que tinhamos visto antes. Tem alguma coisa importante aì.». E para Angers…David(2) realmente gosta da peça, e ele gostaria que os estudantes pudessem experimentar fazê-la. E tem essa questão recorrente ao CNDC « Porque manter os clàssicos, ou porque ensinà-los. » Acho interessante porque tendo estado perto dos estudantes, e ter ensinado, me faz perceber que a peça ensinou-os muito sobre como usar seus corpos de uma maneira, que obviamente eles não tinham experimentado antes. E talvez essa estética tenha ido para um outro lugar atualmente, mas acho que tem algo de importante de aprender todas essas coisas, mesmo que velhas, pois se hà algo de forte nisso, são mais informações para você. Deve ter uma razao para isso ter sido marcado como um « clàssico ». E talvez você naum tire nada disso.. « Ah, eu rejeito esse clàssico !». Mas acho que é uma oportunidade. Pois você pode rejeitar outras coisas, que naum sao clàssicos, coisas de agora mesmo. E quando ensino « Newark », percebo que essa peça esta informando agora algo novo, mesmo que tenha sido feita à 20 anos atràs. Cada um tem seu proprio medo de experiências…
E se pensarmos em arte como algo maior que apenas nos mesmos… Lembrando que, todas essas coisas que em algum momento marcaram uma impressao forte no passado podem nos mover adiante… Entaum você naum esquece delas e apenas repete pensando que estah fazendo algo novo. Mantem-se conectado !

(1) Stacy Spence integrante da companhia de Trisha Brown. Esteve no CNDC/Angers, para realizar a recriaçao de « Newark » peça original criada em Angers em 1987, para os estudantes da FAC (Formation d’artiste chorégraphique) intitulada « Newark/Re-worked ».
(2) David Steele é diretor pedagogico da "Escola superior de dança contemporânea" do CNDC/Angers.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Seule importe l’oeuvre, mais finalement, l’oeuvre n’est là que pour nos conduire à la recherche de l’oeuvre."

Maurice Blanchot

Minha tradução/apropriação...

“O que importa é a obra, mas finalmente, a obra só está aqui para nos conduzir à pesquisa da obra.”

Em: LOUPPE. Laurence. Poethique de la danse contemporaine. Contredanse, 1997, Paris.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

De quase quases




Das estratégias fisicas...
Pensamento, dança, contact comigo mesma. Tudo isso se misturou um pouco e virou aqui alguma coisa, algumas coisas... Antônio Damásio foi de grande ajuda Ricardo, vc tinha razão. “A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne”. Acredito tanto, e sinto como se tivesse esquecido. Mas salvei isso em algum canto aqui dentro, e lembrei, senti, dancei. E a intimidade foi chegando pra esse lado também. O que seria uma intimidade do corpo, da carne...? um cheiro meu, um gosto em mim, uma dobra, um lugar escondido, um embaixo de alguma coisa, isso que não tem mesmo nome (salve Gilson Fukushima), nem voz, mas é corpo... e talvez não seja o caso de mostrar, mas de usar como impulso, como grito. De novo Damásio: usamos o corpo como “instrumento de aferição”, é a partir dele que sentimos o mundo e nos relacionamos com o mundo. Então vamos relacionar essas intimidades da carne com o mundo e gerar alguma coisa...

Dos objetos...
Pensei muito no que conversamos sobre entender a relação com os objetos como uma relação amorosa, quem escolhe e quem é escolhido, quem domina em quem se submete. Deu no noivo cadáver (e hoje acordamos assim, um pra cada lado...), este corpo vermelho cheio de fibra de poliéster, que eu costurei, feri, furei, pisei, abracei, pendurei, mordi, bati, dancei, amei... No diagrama ele começou no grupo dos “objetos-metàfora”, mas deu uma passeada pelos “objetos-meio”. O plástico branco me serviu bem ( os 8 metros), me lembra algo amarelo, mas desenvolvi com ele uma estratégia para me revelar aos pedaços...
E, finalmente, se vc tem seu sonho, eu tenho meu... pirulito (e o noivo tem 2, um em cada olho!).

Das referências...
Alice me é muito próxima. Seu mundo fantástico, suas perguntas descabidas, ela me inspira, me autoriza, me alimenta. A princesa dos cabelos mágicos eu estou procurando, e algo me diz que eu vou encontrar. E, claro, Tim Burton (nem lembro mais se fui eu ou vc quem falou dele primeiro) veio me visitar tantas vezes...

E por fim tenho que dizer que tudo se transforma mesmo nesse (agora um pouco meu) planeta quase nu, vamos ver o que sobrevive até o fim deste projeto...


e

“a dança é o que salva o movimento do clichê” – diz o adesivo na janela da casa da Helena.

o céu no ced...






Um quilo de fibra de poliester, uma tentativa de encontrar a princesa dos cabelos màgicos, um céu, e finalmente tudo foi parar dentro do vodu - o tal noivo cadaver...

domingo, 31 de maio de 2009

Quase Nu, se fosse seria... (versao da Beti)

Se fosse um objeto seria uma carta velha, escrita num papel de carta
Se fosse um prato seria lingüiça com farofa
Se fosse uma canção seria “too drunk to Fuck” Nouvelle Vague
Se fosse um personagem de ficção seria o pequeno príncipe
Se fosse um filme seria uma comedia romântica com a Julia Roberts
Se fosse um lugar seria uma gaveta
Se fosse um aviso seria “baseado em fatos reais”
Se fosse um elemento seria fogo
Se fosse um efeito seria insônia
Se fosse um vegetal seria uma mandioca
Se fosse um planeta seria mercúrio
Se fosse um advérbio de tempo seria então
Se fosse uma estação do ano seria verão
Se fosse um animal seria um gato preto
Se fosse um barulho seria um grito
Se fosse uma cor seria vermelho encarnado
Se fosse um clima seria quente e úmido
Se fosse uma roupa seria essas roupas de velcro para streap-tease
Se fosse uma fruta seria caju
Se fosse uma viagem seria um cruzeiro de navio pelo pais das maravilhas
Se fosse um amor seria uma coincidência rara (nao resisti!)
Se fosse um remédio seria um engov antes e um depois
Se fosse uma hora do dia 3h da manhã
Se fosse uma mulher seria Ivete Sangalo
Se fosse um homem seria Michael Jackson
Se fosse um quadro seria “Ceci n’est pás une pipe”, de Magrit
Se fosse um sapato seria uma galocha branca
Se fosse um talher seria uma faca
Se fosse um veículo seria um trem com um vagão so
Se fosse um mês seria fevereiro
Se fosse um metiêr seria carteiro
Se fosse um livro seria uma autobiografia
Se fosse uma citação seria “é necessàrio se emprestar aos outros e se dar a si mesmo” Montagne
Se fosse uma estampa seria geométrica tipo anos 80Se fosse uma parte do corpo seria o cù
Se fosse uma dança seria um axé coreografado

Sujeita a alteraçoes.
Afinal, uma das propriedades deste trabalho é a de estar "em transformaçao"...

PS.estou escrevendo num teclado francês, os acentos vao parecer estranhos ou inexistentes...

Sozinhando...



E cà estou eu, sozinhando com o universo Quase Nu do Ricardo. Já dancei muito, já corri atrás e na frente do meu pensamento, fiz contact comigo mesma, vesti e despi muitas cuecas vermelhas... e uma certa angùstia me acompanha nessa jornada. Como usar em mim as estratégias do outro? O que fazer se elas não me levam aos mesmos lugares quase nus? Criar novas estratégias para chegar a um lugar comum? Ou aceitar as distorções e os materiais outros que têm aparecido?

Encontrei por exemplo uma forma minha de me revelar aos pedaços, mas tenho que admitir que ela é um tanto quanto... amarela! Os trabalhos começam mesmo a se cruzar e se confundir.

Quando falei ao Ricardo sobre a massa em Amarelo, de onde ela veio e como foi habitando o trabalho, falei que ela era meu outro corpo, uma outra pele, um volume, um peso. Pois bem, antes de vir para o sitio comprei um pedaço grande de tecido vermelho, depois de experimentar tudo e mais um pouco com este material em estúdio, deitei em cima dele, peguei um pedaço de giz e desenhei o molde de um corpo (no caso: do meu corpo). Cortei, e cà estou eu fazendo um outro outro corpo, agora vermelho, agora de tecido. Meu duplo, meu display, meu vodu (e volto à Amarelo...). Faz três dias que me ocupo em costurar esse outro corpo, quando começar a usa-lo vou saber se ele serve mesmo para alguma coisa no trabalho. Mas o artesanato da costura já tem servido para uma meditação ativa sobre tantas coisas...

Re-assisti “Minha vida sem mim”, é emocionante, e me faz pensar mesmo na “formula da cumplicidade”. Os recursos do cinema parecem gerar com certa eficiência esse sentimento de empatia... Ela fala o tempo todo em primeira pessoa, da vida dela, das filhas, do marido, do amante, da mae, e eu não vejo egoismo em momento algum. Pelo contràrio, me pego chorando ou rindo em diversos momentos, completamente entregue. Talvez porque no filme eu possa “conviver” com as filhas, o marido, o amante, a mãe. Eu passo a conhecê-los também, e não so a pessoa que fala deles. E claro, ela està sob a ameaça da morte, o que lhe dà uma licença para ser piegas, sentimental, etc.
Para encontrar a “formula da cumplicidade” fiquei pensando nessas duas coisas: apresentar as coisas sobre as quais eu falo, para que elas se tornem pessoais e familiares também para o público, para que ele se apegue a elas de alguma forma, e contar com alguma situação maior (a ameaça da morte, uma bomba, um incêndio...) que pode atingir a mim, pode atingir o publico, e também tudo isso que apresentei como meu, que a essa altura já serà nosso. Parece confuso, e é. Mas se a “formula da cumplicidade” existe, ela deve passar por aqui...

Antes de dormir leio um pouquinho de Alice (para ter sonhos fantásticos), e ela também està fantasticamente confusa com perguntas: “gatos comem morcegos? E às vezes: Morcegos comem gatos?, pois sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava”.
Mas não deixava de fazê-las! E isso me parece importante. Enquanto não sei se a estratégia leva ao resultado ou se o resultado pede outra estratégia, continuo testando... e sozinhando...

Esse na foto ai em cima é o Barbosa, ele fica deitado ao meu lado, bebendo a água da piscina enquanto eu costuro...

terça-feira, 26 de maio de 2009

Meu retorno ao CED – diário de bordo do primeiro dia

Enfim trocamos... Ricardo voltou para Curitiba, e eu cheguei hoje ao CED. Encontrei os sapos coachando, a casa vazia de gente, mas cheia das intimidades do Ricardo. Seis estratégias para mergulhar em seu universo Quase Nu: um CD para dançar, outro para “sozinhar”, uma pilha de cuecas vermelhas, Alices e Pinoquios, as “autofotografias”, e um dvd cheio de fotos e vídeos pessoais, com um bônus track da Noiva Cadáver (de Tim Burton). Me sinto acionando meu “estado Zelig” de aproximação do Outro.

A internet não està funcionando, o fogão està sem gás (o que me fez jantar um pacotinho de doritos), alguns problemas domésticos que eu so poderei resolver amanha... mas os sapos estão coachando là fora, e eu não paro de pensar no privilégio de estar aqui, e poder “residir” intensamente nossa pesquisa de linguagem.

Amanha começo o trabalho pràtico em estúdio, hoje vou dormir pensando em contradições... no casamento lindamente tétrico de Victor e Emily. Não me sai da cabeça a frase escrita no quadro do Adler: “linda, uma historia horrível”. ( esses dias falei pro Gustavo que esse seria um ótimo titulo, e ele disse “é mesmo, é o titulo de um texto do Caio Fernando Abreu!” Acho que vamos ter que ler esse texto também...).

(postado hj, dia 26, depois que o Thomas chegou, e com ele a conexão internet...)

Elisabete

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Enfim acho que ZELIG veio conversar comigo (ou eu fui até ele, sei lá)

Hoje percebo que foram precisos diversos dias de deglutição das conversas com Nirvana aqui em São Paulo para que algumas questões fizessem sentido. Não que naquele momento não fizessem (faziam muuuito sentido), mas foi trabalhando que sinto que algumas viraram literalmente CORPO.

Muito falamos e experimentamos da complexidade que é se aproximar do outro. Diversos receios permeiam essa discussão: o medo de perder-se nesse caminho; um cuidado e respeito pelo outro e seu universo (que muitas vezes é uma forma de manifestar mais um medo); os complexos e dolorosos medos do julgamento do outro; o receio de executar cascas do outro e nada disso ser interessante, potente, vivo.

A Nirvana, desde nossas primeiras conversas sobre esse projeto nos idos de 2008, nos fala de seu interesse por um filme de Woody Allen, chamado ZELIG (1983). Nesse filme, que assistimos na semana de trabalho com Nirvana aqui no CED, Leonard ZELIG (interpretado pelo próprio Allen) é um humano camaleão que se transforma fisicamente ao entrar em contato com o outro, assumindo algumas de suas características.




Para além de toda a história e de todas as metáforas que são apresentadas no roteiro, me parece que uma idéia nos é muito interessante nesse projeto: um deleite e uma tranqüilidade no fato de poder ser o outro.

Mesmo depois de todas as conversas me peguei novamente, em meio a sessões de trabalho no estúdio principalmente, me corrigindo com expressões como: “agora estou imitando a beti”, “isso é importante para ela, mas não é para mim” ou “eu preciso me encontrar nesse material”. Todas postulações que agora enxergo como covardes, ineficazes e em certa medida falsas.

Explico: não se trata de se anular e se perder diante do outro (nesse caso o outro é o universo amarelo), mas sim de assumir a complexidade que pode ser esse “ser o outro”. As vezes me vejo numa contradição quase esquizofrênica: se por um lado me esforço para me aproximar do amarelo de todas as formas, por outro tento me afastar dele quando tenho esses violentos desejos de “me colocar”, de “tornar isso meu”.
Eu estarei ali de qualquer jeito. Não preciso forçar uma barra para que isso apareça. Já está dado. Me parece que o caminho é mesmo o de se permitir ser o outro, pois vejo nesse permitir-se um mecanismo de recriação. E não o contrário que seria dado pela afirmação “quero me apropriar do universo amarelo”.

Sei que pode parecer confuso, mas precisava partilhar isso com vocês, pois durante uma experimentação aqui ontem me senti meio ZELIG, tranqüilo e curioso por estar ficando amarelo (e por conseqüência ficando meio Beti Finger), ainda que tal sensação não tenha durado muito tempo. (o que é bom dura mesmo pouco).

Ricardo, 21.05, CED)

Sobre o do ZELIG no youtube:
cena de transformação
http://www.youtube.com/watch?v=3W2iSyLpr-o&feature=related
trailer (é muito engraçado)
http://www.youtube.com/watch?v=KcvuzdG9WfY
teaser
http://www.youtube.com/watch?v=fsjt-lNtSfg&feature=related

terça-feira, 19 de maio de 2009

Coincidências Amarelo-quasenuas

Como também já indiquei em posts anteriores, a personagem Alice, de Lewis Carroll (composta num trio entre ela, Piniquio e Pequeno Príncipe), é uma referência bastante presente no meu imaginário quase nu.

Estou retomando o trabalho com o estar quase nu (o que é uma tarefa bastante confusa depois desse tempo imerso no amarelo) e naveguei um pouco para também entender mais dessa pequena com imaginação tão violentamente fértil. Dois momentos-metáforas me interessam de cara na personagem: 1. a longa queda que a leva até o país das maravilhas, especialmente a partir do momento em que já não sente mais medo da queda pois perde a sensação de um dia vai chegar ao fundo; e 2. a licença que dá a si mesma quando passa para o outro lado do espelho (já na segunda obra de Lewis dedicada a Alice). No mundo dos espelhos Alice se sente livre para ser o que quiser ser, já que imagina que "seu eu verdadeiro" está do outro lado do espelho.

Estou procurando formas de potencializar fisicamente estas já tão fortes metáforas textuais, e nessas andanças descobri que Lewis construiu o personagem baseado em uma menina de verdade. Tem histírias lindas sobre essa relação, que me ajudam a ler os livros de outra forma. Por exemplo: o cavalheiro que se despede de Alice no país do espelho é o próprio Lewis. Bom, sou mesmo apaixonado pelas metáforas.

E a imagem da menina-moça também me inspira um tanto.




Maaaaas a coincidência não é essa.
No meio das buscas descobri que uma nova adaptação das histórias de Alice está, neste momento, sendo gravado no cinema. Adivinha por quem? TIM BURTON!
Sim, as gravações começaram no ano passado e o filme tem previsão de lançamento para março de 2010, apresentando diversas adaptações no roteiro. Alice tem 19 anos (eu juro que tive a idéia de transformá-la em adulta para meu conto antes de ver essa notícia, o que aconteceu ontem) e se apaixona pelo chapeleiro louco, papel de Johnny Depp. Estão no elenco ainda Helena Bonham Carter (rainha vermelha), Anne Hathaway (rainha branca), Matt Lucas (os gêmeos). Alice é interpretada por uma novata australiana de 18 anos, Mia Wasikowska.

Ok, central de notícias a parte, fiquei muito feliz de ver que até no cinema os universos quase nu e amarelo estão se cruzando, não é incrível?
Quero muito ver.

Abaixo uma imagem que é a imagem de abertura de um game americando inspriado na Alice.
Atenção especial para o objeto que Alice tem na mão.



(Ricardo, CED, 19.05)

Os corpos sensoriais de Tim Burton


Como já indicado em posts anteriores escritos pela Beti no momento em que realizava algumas de suas traduções, algumas imagens de Tim Burton informam questões que se fazem presentes no amarelo. Especialmente algumas contidas no livro "A morte melancólica do rapaz ostra & outras Estórias". Para quem não conhece, é um livro belíssimo de pequenas histórias de personagens esquisitos, melancólicos e com uma característica especial em comum: um corpo sensorialmente modificado.

A exposta aí, minha favorita por enquanto, é a "A rapariga com muitos olhos". A imagem dela me provoca um desejo e um estado físico-percepetivo que me interessa. Mais uma vez executando minha licença para antropafagizar, digo que quero chegar fisicamente ao "Rapaz com muitas bocas". Ainda não me sinto a vontade para utilizar meus dotes de desenhista para desenhá-lo, mas pretendo fazê-lo em breve.

No livro tem também a "rapariga de olhos fixos" (que vence um concurso local de olhar fixamente); "o rapaz com pregos nos olhos"; "a rapariga vodú" (ver post da Beti) e claro, o protagonista, dono da mais longa história, "o rapaz ostra".

Rapidamente me dei conta que este padrão, de produzir uma fisicalidade sensorial esquisita sem para isso deixar de garantir características humanas, é uma característica recorrente em Burton. E me parece que é nesse ponto, DA CONSTRUÇÃO DE UMA SENSORIALIDADE OUTRA, ESPECÍFICA E DIRIA QUE EMOCIONAL, é que me parece estar localizado o cruzamento entre Amarelo e Tim Burton.

Interessado em esmiuçar esse universo e buscar formas de experimentá-lo, assisti novamente alguns filmes de Tim e li algumas coisas a seu respeito. Assisti, pensando nessas questões, "O estranho mundo de Jack" (1993); "Edward mãos de tesoura" (1990); "A noiva cadáver" (2005) e "Sweenwy Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet" (2008).

Sem sombra de dúvida os mais inspiradores são os estrelados por Johnny Depp (Edward e Sweeney Todd). Por vários motivos me sinto instigado: por não serem animações, os filmes tem um apelo físico-humano-sensorial mais forte. Os personagens centrais são humanos estranhos e com uma forma de vivência sensorial próprias. As mãos de tesoura de Edward viram mais tarde as navalhas de Sweenwy Todd. O que era parte vira extensão (o próprio barbeiro afirma, ao empunhar sua navalha, que só com elas é um ser completo). Me parece que Sweeney é uma retomada, atualizada e mais violenta de Edward. E vejam só: OS DOIS TEM FACAS NAS MÃOS! Facas, que tem me sido tão instigantes em meus últimos dias de trabalho.

Edward usando-as só com a intenção de fazer o bem, de se ajustar.
Sweeney usando-as com a intenção matar, para se vingar.

Enfim... vou caminhando com Burton debaixo do braço a partir daqui.

(Ricardo, CED, 19.05)




sábado, 16 de maio de 2009

BREVIÁRIO (Primeira versão do Ricardo)

Auto-Breviário amarelo

Um planeta, um espaço, um universo imaginário. Um conjunto desenfreado de desejos. Comer e cagar a mesma comida. Mordida. Pelo cú e pela boca. Pela boca e pelo cú. Buraco, vão, uma distância, uma ausência. A sugestão de um bom plano de fuga. De bicicleta. Vó, vedete, ventania, ave. Ave Maria. Cadê? Aqui é sempre veloz, voluntarioso, vulcânico. Cigano. Veio da cigana: cachorros não gostam de gente ruim. Mais uma vez. Mais uma massa. Amassando mais uma massa. Família, fevereiro, futilidade, faca. Faca. Furar, ferir, ferido, fera. Fera ferida. Safadeza, selvageria, urgência, demência. Violência. Faca. Intensa, tensa, tesa. Tesão. Transformação. Um pé descalço, um olho, dois cotovelos e duas mãos. Duas mãos dadas: muito prazer em conhecer-nos, eu vou bem obrigado. Um portão no muro de concreto (por onde agora passa uma borboleta amarela).

(CED, 16.05)

Lista do Ricardo para AMARELO

Aproveitando o embalo da Mi, posto minha lista para o Amarelo, que fiz nos últimos dias. Foi uma terefa bem difícil, pois tivemos contato com muitas listas até aqui (umas 10 para cada trabalho, contando com as entrevistas feitas pelo neto). Assim fica tudo misturado na cabeça...
Outra dificuldade é que as vezes me pego falando sobre a beti e não sobre o amarelo (sem roubar, ricardo!)
Bom, lá vai:

Se fosse um objeto um caderno de desejos
Se fosse um prato um quibebe (carne seca com abóbora) suavemente apimentado
Se fosse uma canção o quereres (na voz da Bethânia)
Se fosse um personagem de ficção moça com brincos de pérola
Se fosse um filme moça com brincos de pérola
Se fosse um lugar cabo polônio num dia de sol
Se fosse um aviso entre
Se fosse um elemento terra
Se fosse um efeito transformação
Se fosse um vegetal cacto
Se fosse um planeta Vênus
Se fosse um advérbio de tempo agora
Se fosse uma estação do ano outono (com desejos de primavera)
Se fosse um animal pantera
Se fosse um barulho sussurro de um segredo
Se fosse uma cor amarelo
Se fosse um clima quente e úmido
Se fosse uma roupa vestido estampado e discretamente insinuante
Se fosse uma fruta mexerica
Se fosse uma viagem seria longa e solitária
Se fosse um amor seria táctil e intenso
Se fosse um remédio chá de erva cidreira
Se fosse uma hora do dia 10 da manhã
Se fosse uma mulher uma mistura de BB e Gabriela (cravo e canela)
Se fosse um homem Caetano Veloso (antes do fim da década de 70)
Se fosse um quadro antropofagia (Tarsila)
Se fosse um sapato sandália de couro
Se fosse um talher colher
Se fosse um veículo bicicleta com garupeira
Se fosse um mês fevereiro (acho que no final)
Se fosse um metiêr cinesiologista
Se fosse um livro Perto do coração selvagem
Se fosse uma citação “Sou da família dos batráquios: através da barriga, vísceras e mãos, me veio toda a percepção sobre o mundo.” (Lígia Clarck)
Se fosse uma estampa abstrações compostas de elementos bem figurativos
Se fosse uma parte do corpo boca
Se fosse uma dança uma polka virando maxixe

colocando Hijikata na roda para cruzar com Amarelo e também Quase Nu.


Michelle.

Quando vi « Hosotan » (1972), uma coreografia de grupo de Hijikata Tatsumi, vi algumas semelhanças em relaçao ao « Amarelo » e aos interesses da Beti - as mulheres sao galinhas vestidas (de quimono) e os homens sao Faunos. Ligeira conexao, porém me seduzi com a brincadeira. Dias depois, durante uma conferência sobre Butô com Patrick de Vos, assiti um video de um dos happenings de Hijikata. E lah estavam, muito homens, somente homens, vivendo experiências que deixa claro a fascinaçao dele por criar estratégias que produzam SENSAçOES. Percebo o amarelo, massa, goiabada, galinha também como intensificadores de sensaçoes.
Entaum agora vou listar algumas operaçoes/estratégias de Hijikata que acabaram por construir sua poética pessoal e também do Butô.


Lista Hijikata (com explicaçoes !)

Gesso – colar gesso ainda molhado sobre a pele, e deixar que endureça. O endurecimento provoca dor, a sensaçao provoca estados fisicos e de movimento especificos. O curioso é que depois o “corpo pintado de branco” virou uma maquiagem usual do Butô.

Galinha – animal bem presente em suas criaçoes. Ele conhecia super bem o comportamento de uma galinha ! No happening que vi em video, a galinha aparece andando sobre uma linha branca, pois uma vez que elas estaum sobre a linha nunca mais saem dela (essa foi a explicaçao do Patrick de Vos). A galinha também representa a conexao de Hijikata com sua cidade natal, uma pequena cidade totalmente oposta ao modernismo de Tokio em 1952, ano em q ele lah chegou.

Um bolo bem açucarado – outra estratégia sensorial.

Linguagem/Palavra – « O corpo é metafora para as palavras, assim como as palavras sao metaforas para o corpo » . Para construir um outro corpo, experiencial, Hijikata sentia a necessidade de construir uma outra linguagem. Ele era fascinado por poesia. Escrevia muito. E as instruçoes para movimento sempre partiam de metaforas, palavras, poemas.

Amor homessexual / travesti – dissoluçao da noçao de gênero. Naum identificaçao.

Referências fortes : Neo-dada, Surrealismo, Teatro pobre de Artaud, Jean Genet e Mishima.

Uns pensamentos - O feio é bonito. Morte é vida. Estrangular o tempo. « 1+1=3, mas as pessoas continuam querendo ser um. »

Aqui vai um link Youtube de um trecho de "Hosotan", de Hijikata.
www.youtube.com/watch?v=mcaot0-deck&feature=related

Lista para QUASE NU



Michelle.

esperei esquecer da lista que o Ricardo fez sobre o Quase Nu, para fazer a minha propria versao. Lah vai!

Se fosse um objeto seria espelho q mostra potenciais futuros
Se fosse um prato seria shiitakes na manteiga fumegantes embrulhados em papel aluminio
Se fosse uma canção seria 3 hinos em um soh : de amor, religiao e guerra
Se fosse um personagem de ficção seria uma fada valente (sem sexo nem idade) sobre um gaviao lilàs
Se fosse um filme seria Cremaster (de Matthew Barney)
Se fosse um lugar seria uma pista de dança ao céu aberto, dentro de uma esfera transparente, cheia de luz. Tanta e tanta luz que quase naum se pode enxergar.
Se fosse um aviso seria « Perigo : corrente elétrica »
Se fosse um elemento seria cristal
Se fosse um efeito seria um que produz outro viagem interespacial e « Esse naum é o Ricardo ! »
Se fosse um vegetal seria um cogumelo
Se fosse um planeta seria Marte
Se fosse um advérbio de tempo seria agora como se estivesse olhando pra si do futuro
Se fosse uma estação do ano seria Verão de Salvador da Bahia
Se fosse um animal seria um unicornio
Se fosse um barulho seriam os do estômago/instestinos sintetizados em uma musica eletrônica
Se fosse uma cor seria qualquer uma muito brilhante a ponto de se fazer branca.
Se fosse um clima seria primavera gerando uma « Revoluçao dos Poléns » (nome na coreografia de Akira Kasai)
Se fosse uma roupa seria sem roupa, sem pelos, sem pau. Um colar grande como de um Farao.
Se fosse uma fruta seria um morango
Se fosse uma viagem seria através de um portal dimensional
Se fosse um amor seria de familia
Se fosse um remédio seria MDMA
Se fosse uma hora do dia sem tempo, sem relogio
Se fosse uma mulher seria Bjork
Se fosse um homem seria Matthew Barney
Se fosse um quadro seria …. Uma escultura minimalista feita de luzes de néon
Se fosse um sapato seria o DG vermelho, porém feito da sua propria carne e osso, um pouco de pele também
Se fosse um talher seria uma faca
Se fosse um veículo seria o gaviao lilàs
Se fosse um mês seria fevereiro em Salvador
Se fosse um metiêr seria aprendiz do amor universal
Se fosse um livro seria de meditaçao ativa
Se fosse uma citação seria « Estamos sendo uma experiência ! »
Se fosse uma estampa seria um raio x no proprio coraçao
Se fosse uma parte do corpo a de dentro
Se fosse uma dança seria a que se pode fazer porque se tem um corpo

Massa 3: o pão.



Desde que comecei a fazer as diversas massas para trabalhar, algo nesse labor me tinha algo de nostálgico. No começo achei que essa nostalgia tinha relação com o fato de ter acompanhado o feitio dela pela Beti durante tantas vezes nos últimos anos, mas aqui percebi (não ocasionalmente) que não é só isso.

Gosto muito de cozinhar e sei fazer diversos pratos. A maioria deles, em especial as massas e farináceos em geral, aprendi a fazer com uma de minhas avós, nona italiana com todas as letras. Fazer a massa me lembra ela e nossas tardes sovando massas de pão, nhoque, sfiha, sonho. Pensando nisso e nas experiências de beti com seu pão amarelo, fiz aqui meu pão, minha receita.

A massa me faz descobrir uma evocação importante: minha infância com a vó leandrina.
Mais um ingrediente para esse meu universo amarelo.

(CED, 16.05)

Massa 2: algo de estranho está estranho.


A massa é fofa, confortável, bonita, macia. Tende para uma imagem poética e carinhosa. A faca é fria, um tanto assustadora, insegura. Ela corta, fura, divide. Tende para uma imagem tensa. Nessa relação (que talvez produza uma terceira coisa, mais estranha que as duas separadas) encontro algo mais perto do meu corpo interte e de uma experiência viva com isso.
Por que unir seria melhor do que despedaçar?

(anotações, CED, 16.05)