sábado, 16 de maio de 2009

Massa 2: algo de estranho está estranho.


A massa é fofa, confortável, bonita, macia. Tende para uma imagem poética e carinhosa. A faca é fria, um tanto assustadora, insegura. Ela corta, fura, divide. Tende para uma imagem tensa. Nessa relação (que talvez produza uma terceira coisa, mais estranha que as duas separadas) encontro algo mais perto do meu corpo interte e de uma experiência viva com isso.
Por que unir seria melhor do que despedaçar?

(anotações, CED, 16.05)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Vazio, molde, massa, corpo inerte.


Os formatos dos vazios que dividem espaço com tudo que mora em mim são metamórficos e violentos. Um corpo bomba que dá vida a meus mais esquistios imaginários, meus mais concretos desejos e minhas mais apelativas metáforas. Será que isso vale?

Na verdade não sei se este vazio é morto. As vezes ele parece tão presente e imperativo que me indica vida própria. É. Talvez meus vazios sejam vivos e dividam comigo a dominância dessa casa que sou eu.

Vazio não combina com unidade. Pelo menos aqui em mim não. O vazio é fugidio, escorregadio, metamórfico, camaleão e espaçoso. Combina mais com buraco. Talvez buracos, pedaços, passagem. Isso, passagem.

Dar uma vida material aos meus vazios (e uma massa de 5 kilos é uma vida material considerável) é um ótimo pretexto. ricardo, por favor se concentre nisso: é um pretexto para uma experiência, não um texto metafórico (três asteríscos aqui).

Espalhar, fazer um grande buraco, pegar com cuidado o que vai se despedaçar de qualquer jeito (meu vazio não é mesmo um todo coerente), recolher os pedaços, seja amável e seja violento, dê um abraço e um amasso, pendure a massa sem que as pessoas vejam ela (lembro, mais uma vez da vera mantero e seu pé de cabra), molde mesmo aquele seu terror, enfrenta ele! Comê-la e cagá-la. Um manto que cobre a distância entre meus pés e os meus olhos. Ofereça a parte do corpo que você não tem, proteja-se com seu vazio de sua própria vontade de se morder. Pedaço, cegueira, bebê, cocô. Tudo escorrendo do sexo.

(Anotações esparças do meu caderninho amarelo, CED, 15.05, Ricardo.)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Respondendo ao post anterior do Ricardo e já atualizando sobre as minhas investidas “quase nuas” aqui em Curitiba...

Pra começar, devo dizer que, depois da semana no CED, fica gritante pra mim o quanto é muito muito difícil manter uma rotina intensa de trabalho na cidade onde a gente mora, onde tem cafofo, imobiliária, comunidade artística, curso de cinema, reunião do cafofo, reunião da imobiliária, reunião sobre políticas públicas com a comunidade artística, reunião do curso de cinema, + a mae, a casa, a louça, as plantas... e agora o gesso no braço! Ai mundo, para que eu quero descer...)

Mas, consegui sim ir trabalhar um pouquinho no estúdio, e continuar as leituras e devaneios. O primeiro dia passei investindo “o prazer de dançar”, com as músicas selecionadas pelo Ricardo num cd que eu adoro. Descobri, entre outras coisas, que meu prazer em dançar está muito associado ao prazer de cantar. Acho que tem alguma coisa aqui, vou investir...
hoje foi o segundo dia e lá vou eu tentar encontrar uma qualidade de movimento para o meu pensamento. Isso foi duro... enfim, tô investindo nesses dois materiais como prática, ainda não consigo falar sobre o que eles geram ou como se desdobram em mim.

Sobre Brigitte em “...e Deus criou a mulher”. adoro duas cenas em especial: um momento super rápido quando ela é apresentada à família, e está sentada desleixadamente numa cadeira/poltrona no fundo do quadro abrindo e fechando um guarda-chuva, e outra quando ela desce do quarto na lua de mel, e aparece no meio do jantar enrolada num lençol, enche uma bandeja, pega um pedaço de frango na mão, e sai dizendo que eles sentem muita fome depois de fazer amor...

Sobre Anna karina:
Se vc digitar « vivre sa vie » vai aparecer a cena da conversa de Nana com o filósofo. O link é esse: http://www.youtube.com/watch?v=co-c5gPWfiM
O olhar é perto dos 08’18’’

Se digitar “Le plus beau regard camera” vai direto para aquele breve e fugaz instante, le plus beau du monde... http://www.youtube.com/watch?v=wkYWSOYlHIo
Mas eu aconselho ver a cena inteira.

E ainda vale dar uma olhadinha em:
http://www.youtube.com/watch?v=neXlHOLPAHE&NR=1
Anna karina et Serge Gainsbourg! Je ne peux pas...

Vou rever « minha vida sem mim » e procurar « ma vie en rose »!
(ficou engraçada essa frase...)

C’est tout pour l’instant.

Beti

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O estudo da própria obra

Já faz mais de um mês que estive em Curitiba numa semana intensiva de tradução com Beti e Ricardo. Minha intenção neste post é colocar em evidência alguns aspectos relacionados a minha intervenção no projeto e reflexões sobre o processo tradutório das obras-próprias Amarelo e Quase Nu.

Parece-me agora que o desdobramento mais destacado da fase de tradução do projeto foi a compreensão do próprio trabalho, da obra. Beti comentou sobre o “poder performativo” da obra e da sua autonomia em relação ao autor. Deve-se levar em consideração a diferença entre tomar como ponto de partida da tradução a obra, aquilo que se dá a ver ao espectador, ou, além dela, os diversos aspectos envolvidos no processo de criação da obra. Uma tradução deve ser feita a partir da obra e não dos elementos que estavam presentes em sua criação, pois eles estão confinados na imaginação do autor e só existem como aparecem materializados na obra. O problema é: como olhar para o próprio trabalho? Com que ferramenta?

Beti colocou o Amarelo como um “sistema multi-níveis”, distribuído em diversos níveis de descrição ou organização. Ricardo apresentou no “diagrama do Quase Nu” os níveis que ele identificou em seu trabalho. A idéia de que a dança pode ser entendida como um sistema subdividido em níveis não é uma idéia nova. Rudolf Laban, em sua Análise do Movimento criou categorias (corpo, movimento, esforço e forma) e subcategorias para descrever cada um dos componentes do movimento. Este sistema de descrição já foi muito usado na observação analítica de dança. Entretanto, a idéia de sistemas multi-níveis tem outro background. Nos artigos escritos em colaboração com João Queiroz(1) sobre tradução intersemiótica(2) nos inspiramos em Stanley Salthe, que, muito sumariamente, afirma que um fenômeno pode ser descrito como uma hierarquia de níveis. Sugerimos, assim, que uma tradução pode ser compreendida como uma relação entre sistemas multi-níveis. Esta noção nos pareceu interessante como uma ferramenta para a descrição do fenômeno de tradução, pois, além de considerar os níveis da obra, considera as relações entre eles, que especificamos caso a caso. Em termos teóricos nos parece bastante produtivo este caminho, pois nos permite comparações mais precisas entre a obra traduzida e a obra tradutora.

Foi interessante utilizar esta ferramenta como parâmetro na prática de tradução. O exercício com Ricardo e Beti, com minha colaboração, foi de identificação dos níveis de seu próprio trabalho. Além de proporcionar mais parâmetros para a as traduções que produziram, o exercício se mostrou interessante, especialmente no caso do Quase Nu do Ricardo que ainda está se modificando bastante, como uma possibilidade de ferramenta do processo criativo. Entender o que o produto criado é auxilia a entender se o objetivo está sendo alcançado.

Em nossos textos (Queiroz & Aguiar), consideramos que os níveis de uma obra de dança seriam identificados como itens gerais da obra, como “dinâmica de movimento”, “ritmo”, “iluminação”, e que seriam identificados de acordo com sua relevância em cada obra observada. Deste modo, os níveis não seriam fixos, mas seriam gerais, ou seja, eu poderia observar níveis parecidos ou semelhantes em outras obras. Na descrição de cada nível mais geral é necessário descrever como ele acontece e como se relaciona com os outros níveis. Entretanto, na transposição para a prática, o caminho se fez um pouco diferente, e houve uma mistura entre níveis mais gerais e outros mais específicos.

Beti compreendeu que poderia dividir Amarelo em três categorias de níveis: elementos, relações e evocações. As evocações, me parece, estão muito mais relacionadas ao processo de investigação do que ao resultado, mas Beti entendeu que seria interessante manter esta categoria. Ricardo, de forma diferente, criou diversas categorias para Quase Nu, e fez um esquema com esses vários grupos. Nas traduções, que tinham como fonte os próprios solos e como alvo diferentes mídias (vídeo, conto literário, desenhos, pão, breviário, fotografia) o exercício dos níveis foi interessante para tornar visível/material a relação entre o solo de dança e a sua tradução, o que torna possível monitorar a tradução. Creio que este método pode auxiliar criadores que estejam em diferentes fases de seu trabalho de criação. Entender o que a obra “mostra” ao público pode ser uma boa ferramenta para continuar elaborando o produto do trabalho criativo.

Daniella Aguiar

Notas:

1. João Queiroz [www.semiotics.pro.br] é professor do Instituto de Artes da UFJF onde coordena o Laboratório de Tradução Intersemiótica. Um dos textos que publicamos sobre o assunto está no link: http://idanca.net/lang/pt-br/2008/02/01/transposicao-e-recriacao/5231/

2. Transmutação de signos entre sistemas semióticos de diferentes naturezas, e.g. literatura  cinema, de acordo com Roman Jakobson.

Atualizando minhas andanças

Como eu e Beti estamos trabalhando separados nas próximas semanas, as conversas virtuais (com trocas de pensamentos e ações) devem se intensificar. Divido com todo mundo uma comunicação que a priori é para ela, mas que pode ser um jeito interssante de todo mundo acompanhar o que estou fazendo por aqui.

Querida, algumas coisinhas:

1. Minhas andanças amarelas:
Dentre as diversas coisas que fiz, finalmente assisti o "... e Deus criou a mulher" (estrelado pela Brigitte Bardeau). Ainda me sinto muito intrigado com diversas coisas que experimentei vendo e estou as amadurecendo para dividir de algum jeito com você. De qualquer forma algumas cenas e questões ecoam fortemente. Ela deitada na areia, os pés sempre descalços, os cabelos voando quando fica abandonada na estrada, a fúria da última dança. Além disso, duas expressões: "o futuro só serve para estragar o presente" e "Estou assustada - é difícil ser feliz!".
Me perdi lendo, vendo e investigando Tarsila, e ela vem com tudo! Rs... vamos ver.
Ah, tenho um pedidozinho pra te fazer... Você me manda o link para aquele olhar incrível da Anna Karina? Tentei encontrar mas não consegui...

2. Minhas andanças quase nuas:
Lembrei de duas referências que podem nos ajudar a cercar o bichinho!
Durante o processo todo lembro que algumas vezes te falei desses filmes, mas nunca foi importante o suficiente para vermos juntos, ou algo assim. No entanto agora eles voltam a povoar meus pensamentos. São eles:

MA VIE EN ROSE (minha vida em cor-de-rosa - Alain Berliner, 1997)
O que mais me encanta e interessa é o jeito que Ludovic revela suas intimidades, sua imaginação e seus desejos mais estranhos e descabidos. A naturalização do imoral, a simplicidade de ser o que se é (pq não há outro jeito de ser). E claro, a intensidade violenta de como tudo isso se relaciona com o mundo. Lindo! Vale a pena voltar pra ele.
Para você aquecer a curiosidade (pelo que me lembro você ainda não viu, né?)
site com informações
http://www.sonypictures.com/classics/mavieenrose/
clipe
http://www.youtube.com/watch?v=g0b0F8HAJgI
compacto com diversas cenas
http://www.youtube.com/watch?v=8J_bYqQE9Qc&feature=related

e

MY LIFE WITHOUT ME (minha vida sem mim, Isabel Coixet, 2003)
Este sei que você já viu... mas quem sabe vale a pena ver com olhos quase nus... rs...
Além de toda a história que por si já é bastante inspiradora, gosto em especial de duas coisas: 1. da interpretação da Sarah Polley, intensa mas simples, uma presença quase tensa, no limte do drama mas sem cair nele, o que penso que promove uma comoção diferente daquela dramalhona e apelativa (isso me interessa muito!!!); 2. da idéia de listar "coisas a fazer antes de morrer". Lembro de no meio da criação do quase nu ter feito uma lista de coisas pra fazer antes dos 30 (uma lista que nunca foi efetivada e também se perdeu com o caderninho... enfim...).
Links aí embaixo para um clipe e duas cenas que acho que falam um pouco disso aí encima. (as cenas estão dubladas em espanhol... não achei outras...)
clipe
http://www.youtube.com/watch?v=1KcaK3ovgcM
cena 1 (entre 3:30 e 7:27)
http://www.youtube.com/watch?v=asF6SSZQ1ns&feature=related
cena 2 (entre 3:25 e 5:15)
http://www.youtube.com/watch?v=TYOfLYt9gtY&feature=related

Em comum os dois tem uma coisa que REALMENTE me parece parte do quase nu. Ambos começam com "minha vida"... rs... aí tem aquela idéia de assumir uma autobiografia que discute assuntos que tocam muita gente! Será que eu vou chegar aí? ai ai.
Se for querer ver e conseguir locar você faz o favorzão de gravar pra nós? adoraria vê-los novamente na volta.

Outra coisinha: achei links para a Alice e para o Pinóquio:

Alice no país das maravilhas
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/alicep.html

As aventuras de Pinóquio
http://www.scribd.com/doc/7172175/As-Aventuras-de-Pinoquio-Por-Carlos-Coload

Beijo,
Ricardo.

“Notes” para AS OBRAS DENTRO DA OBRA (Considerações da Nirvana - Post 2)

DR, discutindo a relação, problemas inevitáveis ou questões interessantes para criar corpo. Ao longo de nossos encontros, detectamos questões saborosas a este desafio e aqui as reúno:

- qual poder ainda resta para quem passa se não criar estratégias diversas para se aproximar do outro?

- eu e o outro fazemos parte de uma ficção: como roteirizar tais encontros?

- qual o pode ser escolha de quem recebe a obra do outro? Dentro de quais possibilidades? Quais caminhos percorrer e recriar dentro das relações propostas pelo outro? Também uma questão de aproximar universos.

- autor de qual parte da estória? A questão do autor é citada várias vezes!
Outras questões são de cunho estreitamente subjetivo (qual não é...?):

- o quanto você sabe da obra dele(a)? “O quanto você sabe de mim?”

- o quanto induzo você saber qual parte de mim?

- o quanto conduzo você comigo?

- permito embora não saiba te guiar da obra?

Uma última questão depois dos diagramas apresentados (ver post no blog com diagramas):

- o que dá coerência à obra? O que fecha?

- O que faz o outro entender de mim? Como me visto do outro para entendê-lo em mim?
Agora, questões cênicas:

- encontro constante com o momento de suspensão, de hesitação, de pausa ao se deparar com o outro (cena, pedaço, jeito de falar, de mover, de resolver a cena), sendo, claro, eu mesmo(a)

- momentos de tensão: preservá-los ou resolvê-los? E o que fazer com o conflito de se aproximar do outro em mim? “Não sei para onde ir agora”.

- transmissão é quando acontece algo no meio de nós dois, no vago, na negociação, no impreciso, na pergunta de aonde ir OU quando encontro um jeito (ainda que provisório)? O que vai aparecer na cena que reconstituir da obra do outro?

- quais são nossas escolhas estéticas: mostrar processo, gerar novas possibilidades cênicas para demonstrar conflito (por exemplo, palestra demonstração?!), compor novas obras (semelhantes, diversas, em qual nível?)?

- por fim e não menos acabado: o que é mesmo pesquisa de linguagem? Estratégia versus hipótese, pergunta versus solução científica (que lembro, é também provisória ainda que no tempo histórico seja ilusoriamente muito bem definida), processo versus caminho linear (também ilusória, qualquer pesquisa requer o vagar).

... Ficção é um estado de hesitação...

Nirvana.

“Notes” para AS OBRAS DENTRO DA OBRA (Considerações de Nirvana - Post 1)

4 a 8 maio 2009
Caieiras, São Paulo

Já que “o amor é coincidência rara”, como são raros colaborações artísticas que multiplicam questões fundamentais a cada um, e que este trabalho aponta para preciosidades do convívio artístico, nada melhor do que começar propondo:

1. Outros modos de dizer “eu te amo”

Em nosso primeiro encontro, apresentei minhas restrições (típico de um 1o encontro amoroso de pessoas que procuram relacionamentos maduros) quanto à palavra TRANSMISSAO, buscando entender o que isso quer dizer no contexto do projeto AS OBRAS DENTRO DA OBRA e para cada um de nós ali presentes. Para minha segurança, tinha lido o fantástico “post” da Michelle no blog como meu principal dever de casa para este encontro, além de claro, conhecer e estar de paquera com essas idéias artísticas e estes “caras” há muito, muito tempo.

Apresento, sorrateiramente, porque receios à palavra “transmissão”:

- transmitir tem fundo poço sem fundo na área da educação; uma vez que nosso corpo é feito de palavras que aprendemos como metáforas, a sugestão de alguém (que supostamente sabe mais) que pode transmitir algo para alguém (que supostamente sabe menos) me parece um pouco... injusta ao processo do saber, inclusive se envolvemos o corpo e suas histórias.

- transmitir pode sugerir caminhos “trans”, sem que seja só de ida e volta, que atravesse, que irrompa processos não lineares de passar algo para alguém; no entanto, nem sempre é levado em conta a complexidade dessas convergências, por tantas vezes divergentes.

- processos de comunicação não nasceram para serem simples códigos nem seguros caminhos de saída e chegada de “bits” de informação; se levarmos em conta isso nas artes do corpo e nos saberes dos movimentos, puxa, tudo fica bem mais interessante quando complexo.

- armadilhas existem para falar de complexidade; vejo algumas como a do poder-saber (bem Foucault mesmo), de corpos dóceis (mais Foucault na veia), de processos linearizados (simplificatórios), de processos de comunicar imaginando alcançar o todo (totalizantes ou totalitários).

Parece que receios aqui giram em torno de amores cruéis...

Para dar cabo, proponho, portanto, alguns sinônimos à palavra transmissão: transportar (mudar de posição) – transfigurar (mudar de figura) – contagiar (o prefixo con- também pode ser muito proveitoso) – transmutar (mutações inevitáveis) – transplantar (adora metáforas biológicas) – transar (por que não)
Ou seja, ficamos com o “trans”, que possa sugerir caminhos diversos àqueles de “ida-volta”, mas perdemos qualquer inocência de poder sobre a transmissão ou de fidelidade irrestrita.

Nirvana.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Diagrama Quase nu em 12 de maio




Sinto que chego cada vez mais perto do que me interessa no trabalho.
Abraço,
Ricardo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Residência de trabalho no CED





Como já havia sido anunciado e programado para as atividades do projeto, estamos eu e Beti num momento muito intenso e especial do trabalho: estamos em residência no CED (Centro de Estudos em Dança) espaço proporcionado pela crítica de Dança Helena Katz, em São Paulo.

O espaço, numa fazenda localizada em Caieiras, na grande São Paulo, é inspiração só. Estarmos num espaço retirado nos faz olhar com calme a tempo para todas as questões que nos assolam nessa nova fase de trabalho, que metodológicamente estamos chamando de fase de transmissão, o que não é muito real, já que sabemos que as traduções continuam acontecendo.

Além da oportunidade de mergulharmos no trabalho sem a correria do dia a dia em Curitiba, aqui no CED contamos com a presença diária de Nirvana Marinho, nossa colaboradora aqui em São Paulo. Etamos no meio do terceiro dia da semana de trabalho e os dois primeiros foram bastante intensos. Neles pudemos atualizar nossas conversas de transmissão e já estabelecemos e experimentamos outras estratégias de compartilhamento dos trabalhos. Algumas questões que martelaram nossas reflexões nesses dois dias:

- que armadilhas a palavra TRANSMISSÃO carrega consigo e como fugir delas, ou lidar conscientemente com elas?
- onde está a potência de uma relação de transmissão? naquele que organiza o material a ser transmitido? no próprio material? naquele que recebe e resignifica o transmitido?
- que relações de poder estão em jogo num processo de transmissão? como sabotá-los e/ou subervetê-los e /ou jogar com eles?

A residência tem um tempo total de 5 semanas: uma semana com a presença dos dois, depois Beti volta para Curitiba e eu fico mais duas semanas, o que se inverte nas semanas 4 e 5.

Enfim, estamos trabalhando e logo postamos amis de nossas reflexões.
Ricardo e Beti.

DIAGRAMA QUASE NU


Também inspirado e incentivado pela semana de trabalho com Dani, atualizei e organizei informações que considero serem de vitais para que quase nu seja quase nu e formulei uma espécie de diagrama que localiza isso.

Assim como é o trabalho, o diagrama é uma colcha de retalhos de meus interesses (entendendo que uma colcha de retalhos não é necessáriamente um conjunto fraco de informações, como fomos habituados a pensar).

A tentativa de organizar um diagrama não tem, para mim, o objetivo de cristalizar temas, questões ou materiais. Pelo contrário é mais uma estratégia para conhecer melhor meu trabalho. Assim o que vocês vêem aí em cima é um retrato do diagrama no início de abril. Hoje ele já mudou. Tem novas urgências e deiou para trás algumas importâncias, assim como todo o processo de trabalho.

MUNDO AINDA SEM NOME








Tendo como ponto de partida o conceito visual desenvolvido em parceria com o publicitário-artista-diretordearte Aurélio Dominoni, que assina o conceito visual de Quase nu em sua versão "espetáculo", apostei na elaboração de uma experiência-pública que me coloca-se em situação para desenvolver uma tradução física.

Chamei a instalação de MUNDO AINDA SEM NOME e minha presença em meio a tal composição visual (que circunscreve um mundo específico e cheio de coisas um tanto líricas e ao mesmo tempo esquisitas e decadentes) aponta para mim diversas importantes questões conceituais e investigativas para o próprio quase nu - espetáculo quanto para as traduções e as estratégias de transmissão.

(créditos das fotos para a incrível e parceira Alessandra Haro)

terça-feira, 5 de maio de 2009

video-teste

"cabelo-saia"

Breviário.

A Galinha é um animal composto por um exterior e por um interior. Se tiramos o exterior fica o interior. Se tiramos o interior então podemos ver a alma. Repetir 3 vezes “Alma”. Calma. Colo, cama, camada, comida, começo. Caso. Canto. Desejo, descaso, desconto, descanso. Coqueiro. Quaresma. Fevereiro. Cócoras, culpa. Culpa, culpa. Calma. Palma, pele, pelo, pano, pardo, plano. Passagem, caminho, passarinho. Carinho. Um espinho, um espeto, uma flecha. Um revolver, uma revolução, uma prisão, um peso. Uma ação. Ferir, furar, dourar, amar. E por que durar seria melhor do que queimar? Seria um susto. Um suspiro, uma sombra, uma sobra. Um oferecimento, um lamento, uma carta de agradecimento. Uma conta, uma planta, uma placa. Um cabo, um gato, uma boca, uma bolha, uma borboleta. Um gato com uma borboleta na boca. Uma baba, uma bomba, e uma Brigitte Bardot.


Elisabete Finger
em amarelo

Abrindo o estudio




Do emaranhado de experiências de tradução feitas até o dia 04 de abril, selecionamos algumas para partilhar com um público que visitou o Cafofo naquele sábado à noite. A Dani falou um pouco sobre sua pesquisa em tradução intersemiótica, e sobre sua experiência com o projeto ,e [10 episódios sobre a prosa topovisual de gertrude stein] ,e nós espalhamos alguns experimentos pelo lugar. Para esta mostra consegui aperfeiçoar meu pão (com uma receita secreta que só quem comeu pode testemunhar) e com um formato de “ovo”, colocado numa caixa de ovo (dessas do tipo “granja”) e embrulhado num papel que, sujo de farelos, trazia meu breviário. Refiz meu “coração vodu”, que agora foi flechado pelas setas da besta e colocado sobre uma vitrola, e apresentei dois vídeos, ainda sem titulo, oferecendo um sofá de plástico amarelo para quem quisesse sentar e assistir. Nesta pequena seleção de materiais reconheço elementos e relações elencadas no diagrama “amarelo sistema multiniveis”. Vejo que as outras tentativas de tradução se distanciam um tanto da obra, mesmo que contenham elementos que a tangenciam, e que apontem alguns caminhos interessantes (tenho especial apreço por um pequeno vídeo que chamei de “cabelo” por falta de nome melhor, e que se der tudo certo deve aparecer nesse neste blog bientôt...).






CAIXA VERMELHA






Durante a semana de trabalho com Dani Aguiar, diversas questões vitais do processo de criação e da organização cênica de quase nu voltaram a tona para serem repensadas e re-elaboradas. Por uma insistência da Dani (obrigado querida), recuperei e voltei a me interessar por uma idéia específica de relação com o espectador: uma relação vouyerística, como se o trabalho fosse meu quarto, ou meus armários, e o público tem livre acesso a isso.

Tal relação se manifesta em diversas metáforas e organizações presentes em todo o trabalho, no entanto na abertura de estúdio testamos (ainda que depois que o debate já havia começado) oferecer uma de minhas caixas de recordações pessoais, que incluía uma enorme pilha de cartas, uma agenda-diário da adolescência, roupas de quando eu fui um bebê.

Algumas questões que ficam latejando no pensamento: isso é interessante de alguma forma? Quem abre minha caixa vermelha tem a chance de ver nisso alguma coisa além de mim mesmo? Que reflexões e sensações essa experiência provoca?

PÉS



A produção de imagens em fotografia e vídeo nunca foi uma grande urgência para meus processos artísticos, no entanto esta perspectiva tem se transformado. Especialmente nas experiências de tradução me lancei o desafio de usar tais mídias (ou seria melhor falar em estruturas de pensamento-ação?) para produzir sínteses que se aproximem do quase nu enquanto uma totalidade. Na verdade enquanto diversas totalidades possíveis.

As experiências com vídeo têm sido peculiarmente difíceis, especialmente no que diz respeito aos resultados que se materializam dessas experiências: nada é do jeito que eu imagino quando roteirizo a coisa. No entanto me colocar em ação para fazê-los me mostra, a cada nova frustração, caminhos possíveis em outras mídias. Voltarei a falar deles logo, quando pretendo compartilhar algum aqui.

Com as fotos tenho me sentido bastante mais a vontade para lidar. Como já apresentei em outro post, desde o começo da pesquisa estou trabalhando numa série de autoretratos, mas não é só.

Motivado por todos os questionamentos e provocações de nossos parceiros de trabalho mais diretos (Gustavo e Neto), trabalhei durante alguns dias na idéia de construir uma única imagem que pudesse falar de um universo quase nu. Não um conjunto de imagens, não uma imagem que fale de um pedaço do trabalho, mas sim uma foto que seja efetivamente quase nua.

Até aqui a imagem que mais se aproxima disso é esta, que chamo de PÉS. Ela ainda não reflete uma possível totalidade, mas coloca isso em discussão.

Vamos conversando!
Amarelo – um "sistema multiníveis"

Grupo 1 - Elementos

Cores
amarelo (plástico)
vermelho (calcinha, goiabada, pele depois da dança/luta)
verde (cacto)
pardo/pele (massa e pele)

Música
Elisa, de Serge Gainsbourg

Gestos

Dança, luta, posturas, deslocamentos
.pequenos gestos
Piscar, balbuciar coisas, pequenas tensões

Materiais
plástico
massa
goiabada
cacto
eu

“imagens fechadas”
Abapuru
A negra
O ovo
O monstro
O cabelo
O play-back/numero

Grupo 2 – Relações

Sensorialidade
.toque
.gosto
.cheiro
.peso

Transformação
(contingente, provisório, movediço)

.por justaposição
.por deformação

Repetição ou retorno - sempre transformado
(aos materiais, à música, às evocações)

Crueldade

Prazer

Convite

Espacialidade
.regida pela trajetória dos materiais: isolamento – sobreposição – isolamento
.importância do plástico: limite, enquadramento, dentro e fora. Palco dentro do palco. Quando ele desaparece eu ocupo o espaço onde ele estava.

Tempo
.tempo da massa: o tempo do material. A ação acontece comigo (estou com ela) mas tem um tempo que está diretamente ligado às propriedades materiais do objeto.


Grupo 3 – Evocações
(referências, coisas que “estão sem estar”, que habitam os elementos e as relações)

devoração

universo pessoal
Dentro e fora do corpo, ter duas bocas, pontas e dobras, distância entre pés e olhos, memória, galinhas da infância, confissões, amor, desejo, luta/ringue, numero, Tarsila, uma idéia de que sou capaz de dar flores e frutos...

memória sensorial
em mim
no outro

Finalmente voltando ao ar...

Passado um tempo necessário para digerir traduções e outras coisas (é difícil mesmo viver da arte nesse mundo, os malabarismos entre criações, execuções e projeções são enormes...) finalmente retomo meus escritos neste blog.

A semana que passamos com Daniella Aguiar em Curitiba foi realmente intensa e produtiva. Fico sobretudo imensamente feliz em perceber o quanto apostamos na prática e nos lançamos em experimentos para, a partir de um lugar de efetiva “experiência”, passarmos a “teorização” de assuntos e questões. Guardo da convivência com Deborah Hay em outro trabalho, a insistência dela na estratégia de “atirar primeiro e apontar depois”, acho que tem algo precioso nisso que se aplica aqui.

Bom, a primeira coisa que fizemos com a Dani foi apresentar e explorar nossas experiências de tradução, colocando na roda o material produzido. Ela trouxe referências importantes e um “olhar de fora” (de fora mesmo) preciso e arejado para organizar vídeos, fotos, desenhos, pães... para escolher o que investir, cavar, aprofundar.

Fizemos com ela uma tentativa de observar as obras* (Amarelo e Quase Nu) como “sistemas mustiníveis”, reconhecendo a princípio quais seriam esses níveis, quais as propriedades que cada um contém ou apresenta, quais as relações entre níveis e propriedades... um exercício que começou um tanto abstrato mas que ganhou concretude a partir das obras e das tentativas de traduçao. Coloco o “sistema multiniveis amarelo” no próximo post, antes sinto que preciso falar um pouco sobre aquela estrelinha ali, ao lado da palavra “obra”.

*Agora toda vez que escrevo ou falo em “obra” sinto a alma tremer diante de todas as questões que esse termo abraça, e agradeço à Milla Jung por ter me apresentado ao texto do Rolland Barthes: A morte do autor (In: BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo, Brasiliense, 1988). Sem entrar propriamente no que o texto apresenta (obra-texto, autor-leitor, e desdobramentos super ricos e complexos), tenho que dizer que ele me fez voltar às discussões que tivemos com o Gustavo, sobre nos mantermos vigilantes na tarefa de traduzir Amarelo e Quase Nu, e não seus processos de criação ou todas as questões que estão em volta deles e de nos mesmos, seus “autores”.

Acreditar no “poder performativo” da obra*, na concretude das questões e situações propostas por ela, entende-la como um micro-universo, um campo, uma língua... sinto que esse caminho me fez investir em minhas traduções de uma outra forma. Não estou produzindo sobre Amarelo, mas em Amarelo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

NÃO SEI DESENHAR MAIS ADORO






Como já havia anunciado em post anterior, uma das experiências que mais tem me seduzido nessa fase de tradução é a em que invisto em desenhos feitos por mim.

Não tenho muito o que falar a respeito deles.
Foram diversos caminhos até encontrar um conjunto de desenhos que chamo assim, como está no título do post.

Me digam aí o que vocês vêem, por favor.

domingo, 12 de abril de 2009

FOTOS DE ONDE MORAM AS COISAS EM MIM








A primeira abertura de estúdio do projeto aconteceu no último sábado, dia 04 de abril. Foi um momento bastante especial por diersos motivos, mas me pareceu especialmente singular por ter me obrigado a organizar parte de minhas experiências de forma que fosse possível alguma troca com as pessoas que apareceriam.
A semana de trocas com a Dani foi absolutamente fundamental para que isso fosse possível, mas sobre o trabalho com ela dedicarei um post específico mais adiante, ok?

Agora penso ser importante registrar aqui quais foram as experiências que coloquei na roda sábado.

Numerei as proposições na ordem em que apareceram no processo, e a primeira delas é um conjunto de fotos que batizo de ONDE MORAM AS COISAS EM MIM. Trata-se de uma série de auto retratos de pedaços meus onde penso em me revelar aos pedaços dando a ver coisas que a totalidade não dá conta de comunicar. De um conjunto de mais de 150 fotos que fazem parte da série de alguma forma, selecionei 17 que foram impressas em papel fotográfico tamanho 20X30cm e dispostas no chão. A idéia de relação com elas (descoberta por conta de uma brincadeira do Gus) era que fossem utilizadas com peças de um jogo qualquer, ou seja, as pessoas eram convidadas a re-organizar meus pedaços de acordo com suas expectativas e desejos.

Falo delas o que falo de quase todo o material que desenvolvi até aqui: elas contém um conjunto significativo de desejos e estruturas do quase nu, no entanto algo me faz pensar que preciso de mais tempo e trabalho sobre elas.

Ricardo.